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Entrevista Dr. Bernardo Bedrikow
Revista Práticas Bem-Sucedidas, edição Outubro/Dezembro/2006
* Jornalista Ana Carolina Ribeiro de Abreu
No vai-e-vem incessante da Avenida Paulista, situa-se o prédio monumental do complexo da FIESP. Em seu andar intermediário ficam os profissionais, em sua maioria ligados à área da saúde, que trabalham para o SESI. Dentre eles se destaca um jovem de 82 anos, chamado Bernardo Bedrikow.
Chego para entrevistá-lo toda agitada, com o coração a mil, motivado pelas batidas rápidas que compõem a harmonia dos carros e das pessoas que não param nunca e não param para nada. O prédio é grande, os elevadores são rápidos e o pé direito inalcançável. Chego ao andar intermediário exausta de tanta adrenalina, mas sou recebida com um sorriso e um ritmo que diverge do mundo que existia lá fora. Dr. Bedrikow é simples, um jovem bem maduro que passa a impressão de ter feito na vida tudo o que deveria. Embora vislumbre suas conseqüências, Bernardo Bedrikow olha o mundo de hoje e não entende – “como pode ter mais de 100 pessoas neste andar e nenhuma saber o nome da outra?”, diz ele. Minha entrevista que era para resgatar um pouco do passado da SST, acabou viajando também para o seu futuro.
O Dr.Bernardo tem a licença de ser um profissional que não precisa de apresentação. Mas insisto em fazê-lo, por pura admiração. Formado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em 1947, fez internato no Hospital das Clínicas. Acidentalmente, virou Médico do Trabalho. A procura de emprego bateu na porta do SESI, que tinha começado, naquela época, a desenvolver seus ambulatórios de assistência médica aos trabalhadores...
Bernardo: Eles propuseram que eu preparasse um plano de atividades e eu fiz isso, voltei no dia seguinte com um plano que me parecia interessante, dentro das coisas que eu havia estudado naquela época. O SESI já tinha uma atividade no setor de SST, que vinha sendo desenvolvida pelo engenheiro Fernando Cubara Ferraz, aposentado da sorocabana que foi aos Estados Unidos fazer um curso de sanitarista. Voltando ao Brasil, quis desenvolver uma atividade e encontrou terreno propício no SESI. Quando eu me juntei a ele, começamos a trabalhar e a partir daí a estruturar o Serviço de Higiene e Segurança Industrial do SESI.
Revista: Como era, naquela época, a SST no Brasil?
Bernardo: O caminho que o Ferraz tinha traçado era procurar empresas grandes e médias, para tentar criar Comissões Internas de Prevenção de Acidentes, a CIPA. Primeiro, porque era uma obrigação legal desconhecida de todo mundo. Segundo, porque era uma metodologia bastante simples, que não requeria grandes esforços, nem grandes despesas e que poderia servir de semente para a implantação de programas. A medida fez muito sucesso e eu comecei a fazer isso junto com o Ferraz, mas observando o que acontecia dentro das empresas para aperfeiçoar e poder praticar Medicina do Trabalho. Em algumas grandes empresas, eu encontrava alguns médicos que eram contratados para dar assistências aos trabalhadores, minha luta foi para que esses colegas começassem a exercer uma atividade preventiva em Medicina do Trabalho. E deu certo. Fomos localizando casos de doenças profissionais, que passavam desapercebidos, fomos exigindo exames médicos um pouco mais rigorosos e assim caminhando para implantar ações preventivas nas empresas.
Revista: Estado, meios de comunicação e sociedade, quem mais colaborou nessa época para que esse processo evoluísse?
Bernardo: O que realmente colaborou foi a Consolidação das Leis do Trabalho, embora mal conhecida pelas pessoas, nos serviu de base para implantação de atividades.
Revista: E depois disso o senhor exerceu quais atividades?
Bernardo: Depois disso houve uma atividade que deu resultados bem positivos. Em 1952, nós incentivamos o SESI a elaborar e por em prática um inquérito preliminar de higiene e segurança do trabalho no município de São Paulo. Foram selecionadas empresas de qualquer número de trabalhadores e ramo de atividades. Então, fizemos o planejamento e o levantamento. Levamos pouco mais de um ano, mas saíram os resultados. Com isso, tivemos uma informação importante, em que ramo de atividade e em que tipo de empresa as lesões, acidentes e doenças relacionadas ao trabalho eram mais freqüentes e principalmente que risco eram mais prevalentes em relação a exposição desses trabalhadores. Com um elemento bastante sólido nas mãos, nós pudemos estimular a prevenção de alguns acidentes mais segmentados, como a exposição ao chumbo nas indústrias automobilísticas, que estavam crescendo naquele momento, as dermatoses profissionais, que eram extremamente constantes sendo mais de 50% dos casos registrados como doenças de trabalho, o ruído, doenças acontecidas devido a condições térmicas anormais. Isso foi sendo documentado e acabou criando uma vinda de trabalhadores ao SESI procurar assistência.
Revista: Como se portavam as empresas com essas mudanças?
Bernardo: Era uma mudança bem grande. Houve manifestações das empresas procurando desestimular nosso trabalho, mas isso foi passageiro.
Revista: E hoje, como o senhor vê a SST no Brasil?
Bernardo: O crescimento foi muito grande. Hoje, nós temos associações de profissionais tão numerosas e associações de proteção. Então, temos uma multiplicidade de organizações de atuações decisivas. Em relação aos Ministérios, falta articulação.
Revista: Na opinião do senhor, por que essa articulação não acontece?
Bernardo: Falta coordenação, cada um dos Ministérios esforça-se para criar programas próprios e falta um espírito de bom entendimento entre eles. Há uma tentativa por meio da política nacional de SST. Eu penso que, com ela, podemos estar no caminho de maior cooperação entre os Ministérios e creio que um dia isso vai ter um resultado muito bom. Por outro lado, o que a gente pode sentir, é que a resposta frente a problemas maiores que surgem como a eficácia da fiscalização, encontram obstáculos. Isso são coisas que devem ser vencidas, temos que ter maior eficácia nos mecanismos de fiscalização. A Previdência Social, por exemplo, fez uma regulamentação nova, que é muito complexa, burocrática e difícil de ser posta em prática. Penso que a barreira que existe não é tão política, mas técnica mesmo, no sentido de articular, dar boas respostas e resolver problemas o mais rápido possível, a maneira que eles vão surgindo. Por exemplo, o problema da LER- DORT domina, ninguém está preparado para vencê-lo, apesar de todo esforço, de haver reunião todos os dias, artigos e matérias saindo constantemente em jornais e revistas. É uma coisa que ainda não encontrou um caminho bom para uma atividade preventiva eficaz. Mas me preocupo, principalmente, com aquilo que a gente vai sentindo que está aparecendo para o futuro da SST.
Revista: E qual esse futuro?
Bernardo: O futuro nos indica que haverá uma maior freqüência de doenças psicossociais ligadas ao trabalho. Pode estar certa de que isso é uma coisa em crescimento em todo o mundo. Não estamos preparados para enfrentar esse tipo de problema, as próprias técnicas para poder vencer ainda estão sendo elaboradas. É necessário que estejamos empenhados e unidos em torno de uma prática nova. Assim, eu acredito que possamos antecipar as medidas preventivas.
Revista: Existe gente empenhada nesse caso?
Bernardo: Não, não. A velocidade com que essas manifestações vão começando a aparecer nos trabalhadores, exigirá muitas ações que dependem de organização no trabalho, de execução e de supervisão. Quer dizer, nós teríamos que estar transmitindo isso para os grupos envolvidos nas empresas e para os próprios trabalhadores. Isso levaria mais tempo do que o necessário para fazer uma ação preventiva.
Revista: Os organismos internacionais não estão preparados para isso também?
Bernardo: Eles sentem as mesmas dificuldades. Isso é uma coisa que não está preparada para ser enfrentada.
Revista: O senhor inclui as doenças psicossomáticas, como depressão e pânico, nesse quadro de doenças psicossociais?
Bernardo: Sim, sim incluo.
Revista: O Estado também não está preparado para arcar com tantos doentes?
Bernardo: Não, não está. Embora ele tenha reconhecido esses tipos de manifestações como algo que pode estar relacionado ao trabalho.
Revista: Existe um preconceito?
Bernardo: Sim, existe um preconceito. Entretanto é uma coisa que nós temos que enfrentar e temos que nos preparar para enfrentá-la no local de trabalho e não no consultório.
Revista: O que o senhor recomendaria em relação a isso aos profissionais que trabalham com a SST?
Bernardo: A única coisa que nós podemos influir é sobre educação e treinamento. Melhorar a forma de comunicação com os profissionais envolvidos. Hoje, temos educação à distância, teleconferências e disseminaçãorápida da informação. Esse movimento vai encontrar uma barreira forte, de difícil e longa penetração, por isso que eu acho que esses programas vão demorar a serem implantados e colocados em prática.
Revista: Como médico, o senhor vê solução preventiva?
Bernardo: Esse é um caso complicado, porque a doença psicossocial não envolve só a organização do trabalho, mas a questão social e familiar. É um problema bem diferente de uma intoxicação.
Revista: Se por um lado ganhamos em inovação e tecnologia, perdermos em qualidade de vida. No trabalho acontece assim?
Bernardo: No trabalho acontece exatamente a mesma coisa. Apesar de todas as tentativas de criar condições mais favoráveis, existe um conjunto de fatores como dificuldades econômicas, desemprego, etc., que faz com que se crie um clima para desenvolvimento de problemas de ordem psicossocial.


