Fernando Maciel


A prevenção de acidentes enquanto estratégia de lucro empresarial

Fernando Maciel
Procurador Federal em Brasília, Mestre em Prevenção de Riscos Laborais pela Universidade de Alcalá de Henares (Espanha), autor do livro Ações Regressivas Acidentárias

A cada real investido em prevenção de acidentes do trabalho as empresas podem obter um lucro de R$ 2,2. Essa é uma das conclusões da pesquisa “Os lucros da prevenção: cálculo dos custos e benefícios dos investimentos na segurança e saúde no ambiente de trabalho”. O estudo, que durou um ano e contou com a participação de 300 empresas de 15 países, foi desenvolvido pela Associação Internacional de Seguridade Social (AISS) em parceria com o Seguro Social Alemão de Acidentes de Trabalho, e a Instituição do Seguro Social Alemão de Acidentes de Trabalho dos Setores de Energia, Indústria Têxtil, Eletricidade e Produtos Multimídia.

Os pesquisadores também destacaram os efeitos diretos dos investimentos em saúde e segurança no trabalho, a exemplo da consciência do risco por parte dos empregados, da redução das condutas perigosas e, consequentemente, do número de acidentes no ambiente de trabalho. Além disso, foi verificada uma melhora na imagem da empresa perante os seus colaboradores e da cultura no ambiente de trabalho, bem como a motivação e satisfação dos trabalhadores. O resultado não poderia ser melhor: metade das empresas que participaram do estudo que contavam com investimentos maiores em segurança e saúde no ambiente de trabalho revelaram que diminuíram os custos empresariais.

Pesquisa encampada por José Pastore, economista do Instituto de Pesquisas Econômicas e professor da Universidade de São Paulo (USP), confirma as conclusões do estudo internacional. O estudo revela que o custo total de acidentes de trabalho no Brasil é de aproximadamente R$ 71 bilhões/ano, valor que representa 9% da folha salarial anual dos trabalhadores do setor formal no Brasil. Na conta do economista estão os custos para as empresas (interrupção do processo produtivo, por exemplo) e para a sociedade (Previdência, Sistema Único de Saúde e custos judiciários).

Está comprovado. O custo social dos acidentes de trabalho no Brasil é assustador e afeta o bolso de todos os cidadãos. Para se ter uma ideia, no que se refere à despesa previdenciária, se considerarmos exclusivamente os gastos do INSS com benefícios acidentários, somados ao pagamento das aposentadorias especiais decorrentes das condições ambientais do trabalho, em 2013 encontraremos um valor superior a R$ 18 bilhões/ano. Se adicionarmos despesas com o custo operacional do INSS aos gastos na área da saúde e afins, verificar-se-á que o custo Brasil atinge valor superior a R$ 70 bilhões/ano.

Em que pesem as constatações científicas sobre o tema, o nosso país está em descompasso com as grandes potências mundiais no que tange a consciência preventiva de acidentes laborais. Estatísticas internacionais atribuem ao Brasil a 4ª colocação mundial em número de acidentes fatais e o 15º em acidentes gerais. De acordo com dados da Previdência Social só no ano de 2014 os riscos decorrentes dos fatores ambientais do trabalho geraram cerca de 4,5 acidentes/doenças ocupacionais por minuto, bem como uma morte hora de jornada diária.

Recentemente foi divulgado um estudo realizado pelo SESI no período de Outubro/15 a Fevereiro/16 com 500 médias e grandes empresas brasileiras. A conclusão alcançada foi no sentido de que o investimento em medidas de saúde e segurança no trabalho – SST reduz em 48% as faltas ao trabalho, aumenta 43,6% a produtividade e, de modo geral, reduz os custos em 34,8%.

Qual o empresário que, no atual cenário de crise financeira que assola o nosso país, não gostaria de implementar uma medida de gestão que acarretasse na redução de aproximadamente 35% dos seus custos? A resposta para esse questionamento é fácil, basta investir em medidas de prevenção de acidentes/doenças ocupacionais.