Estefânia Ferreira e Érica Freitas


Ebook Facilitadores e Dificultadores no Processo de Retorno ao Trabalho

Absenteísmo, desperdício e liderança

Estefânia Ferreira
Especialista em Gestão de Negócios e Tecnóloga em Saneamento/Controle Ambiental

Érica Freitas
Gestora de Recursos Humanos Especialista em Legislação Trabalhista e Direto Previdenciário

No meu primeiro emprego eu tomava café da manhã preparado pelo Antônio no refeitório da empresa. No começo, Antônio era muito alegre e bem-humorado, mas com o tempo foi ficando mais quieto. Depois mais sisudo. E começou a chegar atrasado. Com o passar das semanas, Antônio começou a faltar. Eu fiquei preocupada e uma pessoa me disse “Acho que ele não está gostando de trabalhar aqui. Ficar doente é um sinal”. Na época não fez sentido pra mim isso, não entendia a relação entre doença e felicidade (ou satisfação) com o trabalho.

Com o passar dos anos fui reparando que quando eu estava entusiasmada no trabalho, minha imunidade era bem alta e eu nunca ficava doente. Mas se eu estava desmotivada, surgiam enxaquecas, dores, resfriados... Na época eu não relacionava as duas coisas, mas com o tempo comecei a reparar e ver que quando os ciclos de enxaqueca se tornavam mais frequentes, era reflexo de uma relação ruim com a liderança e hora de buscar novos desafios. Ou seja, a minha satisfação no trabalho se relacionava diretamente com a assiduidade.

O absenteísmo é uma expressão utilizada para designar a falta de assiduidade no trabalho e outros deveres e obrigações, seja por ausência ou atraso. Os motivos também podem ser involuntários, por doença, legais e outras causas diversas. Gera perda de homem hora e tem impacto também nos impostos pois o INSS muda sua tributação (FAP- Fator acidentário previdenciário) a cada ano baseando-se na quantidade de funcionários que sua empresa enviou para receber os “benefícios” do INSS.

Ao me tornar auditora e visitar muitas empresas, fui aprimorando a visão sistêmica e melhorando a percepção dos negócios e a relação dos indicadores monitorados. E se tem um indicador importante e muito negligenciado pelas organizações é o absenteísmo. Ele é poderoso para analisar como estão as condições de trabalho – sejam elas físicas ou emocionais. Quando analisamos pelo ponto de vista físico, podemos ter uma noção sobre o ambiente: ergonomia, temperatura, condições sanitárias, segurança dos equipamentos, ou seja, infraestrutura em geral. Já sob o ponto de vista emocional podemos avaliar: comunicação inadequada, assédio moral/sexual, bullying, metas intangíveis e outras situações que podem, inclusive, ocasionar Síndrome de Burnout, geralmente, um reflexo da liderança direta. Se a questão for infraestrutura, é menos trabalhoso: basta investimento financeiro. Mas quando a questão é liderança, o investimento é maior e mais a longo prazo – já que não é somente financeiro.

Preparar líderes é algo trabalhoso, requer tempo, compromisso, atenção, presença! Líderes não nascem prontos e são construídos numa longa jornada de preparação e aprimoramento. E exige da liderança suprema da empresa (a famigerada Alta direção) o compromisso para que isso possa ser desdobrado para os demais. Afinal, não se pode dar o que não se tem... Então, a (boa) liderança começa com a alta direção da empresa, e vai “cascateando” para os demais níveis. Os ajustes dos líderes devem vir de seus líderes!

Nesse contexto, o papel da área de Gestão de Pessoas (ou Talentos Humanos) é estratégico para alinhar a estratégia da organização com o processo de preparação dos líderes, definir a metodologia que será utilizada, contratar consultores e mentores, definir temas para serem abordados ou priorizados, além da avaliação da eficácia das ações – e tudo isso alinhado com a cultura organizacional. Não é o próprio RH que veste a capa de super-herói e resolve o problema nas equipes, nem é o “dono” do programa. Mas ajuda os líderes a assumir o papel perante suas equipes.

O absenteísmo indica que tem talentos adoecendo e perdendo horas preciosas que poderiam estar gerando riqueza. Ou que vão acabar gerando riqueza no concorrente! É um desperdício dos talentos e dos recursos da empresa e, como qualquer desperdício, deve ser visto e tratado como tal: estudado, entendido e ter ações constantes de controle. E se você acha que desenvolver liderança e controlar absenteísmo é besteira, pode ser que sua empresa não dure mais uma geração.