Holmes Martins


As novas e promissoras perspectivas de tratamento do sofrimento mental nas empresas

Holmes Martins
Psiquiatra

O efeito da iatrogenia na Saúde Organizacional

Iatrogenia são complicações causadas por um tratamento médico. Vão desde efeitos colaterais contornáveis até doenças graves e mesmo mortes. Inexistem estatísticas no Brasil, mas nos Estados Unidos se estima que as iatrogenias já respondam como a terceira causa de adoecimento no país. É grave, evidentemente, principalmente por serem causas de adoecimento e morte plenamente evitáveis. E qual o papel que a psiquiatria tem neste cenário?

Em 2017 a Fundação Oswaldo Cruz abrigou o primeiro seminário internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas. Uma situação epidemiológica trazida à tona pelo jornalista americano Robert Whitaker demonstra, ou pelo menos indica, que a prescrição indiscriminada de medicamentos psicotrópicos – para tratamento de depressões, ansiedades, fobias, psicoses, dentre outras condições compreendidas como “transtornos mentais” – é a variável relacionada à própria cronificação do transtorno que pretendia tratar. Tal situação pode ser ilustrada com seguinte análise histórica: em Anatomia de Uma epidemia, 2017: Fiocruz, Withaker demonstra qie introdução de antibióticos, no período entre Grandes Guerras, fez despencar a incidência de mortes por infecções; o mesmo também observado para uma série de doenças oncológicas e a introdução de fármacos para tratamento de cânceres a partir da década de 1980; todavia, após a disseminação do uso de psicotrópicos a partir dos anos 1980 a prevalência de transtornos mentais – ou seja, de casos novos somados aos antigos – aumentou exatamente nos grupos medicalizados.

Simultaneamente, outros pesquisadores trabalhavam em temas correlatos. Irwin Kirsch conclui, usando inclusive a lei de acesso à informação nos Estados Unidos, que os antidepressivos com comercialização liberada pelo FDA (“Food and Drug Administration”) tinham efeito terapêutico semelhante ao do placebo; ou seja: não entregavam o que prometiam e ainda causavam efeitos colaterais graves. John Read, na Inglaterra, evidencia que transtornos mentais, ao contrário do apregoado por neurocientistas desde a década de 1980 (identificada como A Década do Cérebro para o incentivo às pesquisas), não são “doenças do cérebro”, mas sim adoecimentos com causas multifatoriais, fundamentalmente o ambiente social no qual a pessoa que adoeceu estava inserida.

E aqui chegamos ao ambiente corporativo, que afinal é um ambiente social com características singulares pois: 1- a presença é compulsória, 2- a forma como exerce essa presença tem implicações nos relacionamentos profissionais, 3- os relacionamentos estão diretamente implicados na percepção de êxito, 4- o êxito profissional pode impactar os proventos desse trabalhador e 5- mas no qual questões familiares e pessoais do trabalhador muitas vezes não são acolhidas, mesmo que causem, pelo senso comum, inquestionável sofrimento a qualquer ser humano: adoecimentos na família, contas que mesmo com todo zelo não fecham, permanência por longos tempos em péssimos transportes públicos, vulnerabilidade por violência urbana, só para citar alguns.

O que fazer com aquele trabalhador (da presidência à copeira) que após uma situação de sofrimento acaba por receber a prescrição de um psicotrópico (antidepressivos, ansiolíticos, lítio, antipsicóticos ou estimulantes), ao invés da ajuda para resolver o problema pelo qual atravessa? Um psicólogo finlandês que também esteve no simpósio A Epidemia das Drogas Psiquiátricas e um indiano especialista em filosofia organizacional têm a contribuir para essa compreensão. Jaakko Seikula, o finlandês, reduziu a incidência de esquizofrenia na região em que trabalhava com medidas clínicas que tiravam do isolamento a pessoa acometida de um primeiro episódio de psicose. Reduziu de 32 para 2 casos por 100.000 habitantes a cronificação. Raj Sisodia, o indiano, forjou o termo “healing organizations”, as empresas que curam, demonstrando que os ambientes corporativos são capazes de cuidar de seus stakeholders, além portanto de apenas aqueles que estão na folha de pagamento.

As “empresas que curam” são descritas como “as que vão além de suas expressões de amor e cuidados para com as pessoas. Elas ativamente buscam as causas de sofrimento e dor para todos stakeholders[i]”.

Então, no momento em que discutimos a questão da iatrogenia, temos soluções alternativas aos psicotrópicos surgindo tanto no ambiente terapêutico do que é reconhecido como Saúde Mental, quanto no corporativo com um novo conceito que pode ser que pegue: a Terapêutica Organizacional.

[i] Nota: “stakeholder” é um estrangeirismo sem tradução fechada. Seu conceito poderia ser traduzido como partes interessadas para aquele produto ou serviço, não limitados à sua cadeia produtiva ou ao tempo em que são produzidos. Inclui também a família dos trabalhadores e eventuais pessoas afetadas pela produção ou uso do produto ou serviço.